domingo, 18 de fevereiro de 2018

Informação - Paulo da Costa Domingos ao vivo no Teatro da Rainha



Paulo da Costa Domingos irá estar presente na próxima terça-feira no Teatro da Rainha (Caldas da dita) para a leitura de poemas e esclarecimento público dalgumas matérias relacionadas com vida & obra. O poeta Henrique Manuel Bento Fialho, cabecilha do evento, também estará presente e, sob a sua orientação, alastrará o vírus dessa sessão.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

[chovia e o mundo]

chovia e o mundo (a)parecia-se
contigo        mobília velha
no sótão de deus        depois
cessou o dilúvio e com ele
a barca lavou-se dos pesos

quando tornas o rosto ou tinge
a corda ainda à tua cintura atada
aí está ela        a vida memorizada
tão pesada no coração que
arrastavas os dois
e quem mais
te quisesse acompanhar

lentamente
rumas para outros rios
e afluentes
que pelo oeste chegaste
a este

Bad Meinberg


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Informação - "O coração estendido pela cidade"

Passo a informar que O coração estendido pela cidade está já à venda. 

basta clicar na imagem ao lado e seguir os passos solicitados pela editora.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

fecho os olhos e lisboa vem

fecho os olhos e lisboa vem
de dentro levando-me pelas colinas
perdi já as vezes das quedas
enamoradas nos miradouros
onde vinho e sol me embeveciam
e o ar morno era rasgado
pelos ventos eternos do verão da cidade

dá-me a mão a adolescência
e espalho-me pela relva
da gulbenkian até a terra
girar obrigando o sol a pôr-se
e nós atrás dele para o jardim
de alcântara dando a boca à primeira
filosofia para endireitar o mundo
que estará sempre inclinado
e nós com a noite entre dois nortes

nenhuma distância é longa para o passo
e a língua          de uma maneira
ou de outra está-se sempre acompanhado

aos quarenta penso voltar        tudo
estará diferente bem-lo sei
conheço e aceito a lei do tempo
nem terei tomado Manhattan ou Berlim
isso pouco importa depois
de L.C. as ter tido para si
talvez me tenha deixado Lisboa para mim

permaneço um pouco mais de olhos fechados


Bad Meinberg


domingo, 14 de janeiro de 2018

Informação - lançamento de 'Imagens Roubadas', de Fernando Guerreiro pela Enfermaria 6



Convite


Sexta-feira, 19 de Janeiro,
pelas 17h na Linha de Sombra, em Lisboa (Cinemateca).
José Bértolo e Tiago Silva devolvem as Imagens Roubadas
por Fernando Guerreiro na enfermaria

Links:

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

[como uma estrela que te queima]

como uma estrela que te queima
o rosto        a vida fende por entre
tudo        indo ao encontro
       como a minha língua
de todos
              os teus lábios
                                    de tuas bocas



Bad Meinberg


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

a vida tem-te no seu esquecimento

enquanto o vento rumina
a paisagem tudo se passa sob
a aparência        o luxo na pele
das coisas        muda o modo
de ver        atenta
                            atenta a
(deus) vida tem-te no seu esquecimento
e ignoras a sua infinita presença
no musgo no olhar do animal
que te vê nu e indistinto
como qualquer outro

enquanto o vento toca o campo
destituite da tua realeza


Bad Meinberg


domingo, 24 de dezembro de 2017

votos

aos 67 leitores, que abaixo se acham representados, desejo os votos de um feliz natal e bom ano!

e, claro, a todos os outr@s também!

abrassos

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

a lição do verde

agarrada ao frágil ramo
a cotovia ri do esplendor
gelado e nu do inverno
ostenta os seus azuis
ao sol        ensina a árvore
a recuperar o verde


Bad Meinberg


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

batem os sinos na sala

o homem do sol poente
enche de nada
o silêncio incapaz de emudecer
os burburigmos do corpo         o rumor da
vida        sufoca o que por fora vai
rodeando o seu ouvido escondendo
as vozes das coisas

onde numa sala tem o luxo
de se aquietar e abrir o fole
a meio do tempo
inquieta-se com o mundo
fala        tosse        liga as máquinas
para que tudo se afaste de si

o ego é um martelo
batendo num sino
tudo se cala à volta
e a todos chama
para lhe prestar atenção


Bad Meinberg


domingo, 17 de dezembro de 2017

Informação - Convite para a apresentação de 'Ao jeito dos bichos caçados' de Otávio Campos pela Enfermaria 6

 

 



Convite


Caros Amigos,

É com muita alegria que vos convidamos para a apresentação do nosso novo livro, Ao jeito dos bichos caçados, de Otávio Campos.
A apresentação contará com a presença do Otávio e estará a cargo de Mariano Alejandro Ribeiro, Mariano Marovatto e Ederval Fernandes. Terá lugar já na próxima sexta-feira, dia 22 de Dezembro, no Bar Irreal, em Lisboa, pelas 20 horas. Teríamos muito gosto em vos ver lá.
Poderão encontrar aqui os primeiros poemas do livro.
Com os nossos melhores cumprimentos,
Enfermaria 6
Links:
Enfermaria 6
www.enfermaria6.com
enfermariaseis@gmail.com

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

108 sonnengrüße

fiz 108
agradecimentos ao sol
e         enquanto comia
na muda sala        o sol
por entre as nuvens
incendiou a neve e o meu olhar

uma simples troca de
cumprimentos entre cavalheiros


Bad Meinberg


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

a voz de longe

um fruto dificilmente
rebentará         permanece a terra
fértil e as sementes deixam-se
tocar pela secura e a podridão

tenho quanto baste mãos
pernas tronco um corpo
em vida que te abraça com os olhos
postos no leste

para aí chegar canto        busco onde pôr
a voz        faço-a habitar
a câmara escura entre a barriga e a garganta
e tocar-te aí - tão longe

täo longe onde estás - vagabundo no tempo
depois enfim dizer-te do amor
o segredo: conheço-te         depois morrer
como quem morde uma maçã         como

quem faz estalar um caminho
de chorões ao longo de falésias livrando a pele
a curtir-se de sal ou voltando um dia a casa
e embriagar-me com o rosto

enredado no teu cabelo
sentado em telhados para o lado
do castelo com a mão despedindo-se
na ondulação do teu mar


Bad Meinberg


segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

campos caídos em silêncio

nevou o dia
inteiro        sob esse peso
caíram os campos
em silêncio

nos ramos mais altos das caducas
árvores pousavam em admiração
as aves de olhar
persistido no vazio

eu respiro em profundidade
sentado no mundo        atravesso-o
de coração aberto pela dor

e a tua ausência
o tempo gelado nesta paisagem
nâo arrefece o desejo

Bad Meinberg


sábado, 9 de dezembro de 2017

é para a vida que um rosto se vira

nascemos para a morte para sermos
um instrumento para a vida
assim o canto do melro a cortar
as trevas da noite         a onda um lençol
cobrindo as marcas dos corpos
dos amantes nas suas contorsões de despedida
lâminas vegetais pelas negras fracturas
o mudo grito da vagina e a água matricial
para a nossa vinda aquática         o interesse
no olhar do gato no para lá
de uma invisível fronteira de areia
ohno kazuo persistindo na dança após um século
quando já o corpo dava de si abraçando a paralisia
também nós teimosamente          como
o secretamente sabemos           fechando os olhos
arrastando o cadáver de uma relação
mesmo face ao desenlace é para a vida
ainda que o rosto se vira
vendo a morte estendendo os braços
para o beijo que leva o sopro
de retorno à vida

Berlim - Bad Meinberg


quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Informação - Apresentação de 145 poemas, de Kaváfis, no Porto, 9 Dez.


O livro 145 poemas, de Konstantinos Kaváfis, com tradução e apresentação deManuel Resende, vai ser apresentado no Porto, no dia 9 de Dezembro, em três momentos diferentes.

Entre as 10h00 e as 19h00, a Flop vai estar na Livraria Poetria para entregar os exemplares a todos os co-editores do livro. A Poetria terá também livros para venda a preço especial de lançamento.

A partir das 16h00, serão lidos poemas deste livro em alguns cafés das imediações, num percurso que junta o Café Vitória, o Aduela e o Pipa Velha.

Às 22h00, as Galerias Lumière abrem fora de horas para uma conversa com alguns co-editores do livro e uma leitura em português, por Isaque Ferreira, e em grego, por Ioli Georgila.

Contamos com todas e com todos.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017



And no more shall we part
It will no longer be necessary
And no more will I say, dear heart
I am alone and she has left me

And no more shall we part
The contracts are drawn up, 
The ring is locked upon the finger
And never again will my letters start
Sadly, or in the depths of winter

And no more shall we part
All the hatchets have been buried now
And all of the birds will sing to your 
beautiful heart
Upon the bough

And no more shall we part
Your chain of command 
Has been silenced now
And all of those birds 
Would've sung to your beautiful heart
Anyhow

Lord, stay by me
Don't go down
I will never be free
If I'm not free now

Lord, stay by me
Don't go down
I never was free
What are you talking about?

For no more shall we part
And no more shall we part

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

4 citações (amor, vida, sentido e criação)

"Mas eu, amor: isto não pode ter-me acontecido apenas por desleixo. Mas amor, meu amor, porque foi que viemos a nos abandonar um ao outro; como é que eu e tu deixámos que entre nós se interpusesse esta aparência de abandono?"

"(...) dizer-lhes sem palavras como é bela a vida vista por quem por ela morre - agora e amanhã e sempre enquanto dia e noite e lágrimas houver)."

"Não saia fora do caminho que é o seu e o levará à porta a que só você tem o direito de meter a chave. A porta atrás da qual se encontra a pedra com o teu nome verdadeiro."

"A Criação não terminada ainda: de mãos a essa obra havia uma disseminada categoria de pessoas cuja credencial era denunciada pelo modeo de serem no seu tempo. Por serem do seu tempo eram necessariamente contra os instalados no seu tempo. Os fabricadores da Nova Terra nunca seriam normais, porque a norma se mantém ao abrigo das situações-limite (e a Nova Terra só podia surgir por meio de arrombamento pacífico de tudo o que limitava o Homem)."

in Nuno Bragança, Directa, Lisboa, Moraes Editores, col. Círculo de prosa, 1977: 266-276 e 270-271.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Grizzly Bear - Mourning sounds



I made a mistake
I should have never tried

I took the cake
Finished every slice
I moved away
Still playing off the fights
For every day
I share our love delight

I stare at the face
Looking through my eyes
I move at a pace
That I cannot survive
I'm hauling away
I do it all the time
Let love age
And watch it burn out and die

I woke to the sound of dogs
To the sound of distant shots and passing trucks
We woke with the mourning sound
It's the sound of distant shots and passing trucks
We woke with the mourning sound
It's the sound of distant shots and passing trucks


I own the faith
Could never have denied
This isn't a place
Where I can even try
I'm hauling away
I do it all the time
Let love age
And watch it burn out and die

We woke with the mourning sound
It's the sound of distant shots and passing trucks
We woke with the mourning sound
It's the sound of distant shots and passing trucks
We woke with the mourning sound
It's the sound of distant shots and passing trucks

sábado, 2 de dezembro de 2017

Galway Kinnell - Cara estranha existindo na memória à beira do Juniata azul (conclusão)


5

Nesta margem – a nossa margem –
da desaparecida água azul, tu deitas-te,
chorando no teu leito, escutando esses
mínimos
temíveis estrondos
de despedidas trespassando os bosques virginais no crepúsculo.

Também eu comi
as refeições do litoral negro. No próprio
colchão do tempo, onde um trapo com a forma de um corpo
está deitado junto a um trapo – sepulturas
para onde são lançados
por aqueles que vieram antes,
amantes,
ou amigos queridos,
ou estranhos,
que aqui amaram,
ou aqui enterraram os seus dentes de pesadelo,
ou afugentaram os seus engates,
o sagrado sino tine a cada hora para morrer contra a cidade de folha de vidro –

deito-me sem dormir, lembrando
o corpo maduro
da galinha, o calor da carne da galinha
assustando as minhas mãos,
todos os seus desejos,
todos os seus cheiros de morte,
florescendo uma vez mais na noite estrelada. E depois a espera –

não longa, concedo, mas por toda a minha vida –
pelo suave, pequeno
baque do seu retorno entre as pedras.

Poderá alguma vez ser verdade –
todos os corpos, um só corpo, uma luz
a união feita das trevas de cada um?


6

Caro Galway,
                     Não tenho a quem recorrer porque Deus é meu inimigo. Ele deu-me a luxúria e o prazer e cortou-me as mãos. O meu cérebro está sufocado com o seu sangue. Perguntei porque hei-de amar este corpo que temo. Ele disse, É tão magnificente que nunca mais pode ser perfilado – meu caixão, querido e brilhante. Nunca te orgulhaste tanto de uma coisa que a quisesses para a tua presa? A sua voz estrangula a minha garganta. Alma de áspides, senhor e captor: ele quer matar-me. Perdoe a minha cegueira.  
A sua, nas trevas,
Virginia

7

Cara estranha
existindo na memória à beira do Juniata azul,
estas cartas
através do tempo creio eu
serão a única coisa que saberemos um do outro.

Tão pouco o que cada um é desfia-se a si mesmo pelo olho
de um espaço vazio.

Esqueça.
O eu não é o pior de tudo.
Que as nossas cicatrizes se apaixonem.


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 29-31.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Galway Kinnell - Cara estranha existindo na memória junto ao Juniata azul (cont.)



3

Ao crepúsculo, à beira do Juniata azul –
“uma América rural,” dizia a revista,
“agora desaparecida, mas existindo na memória,
um jardim primordial perdido para sempre...”
(“Estás a ver,” disse à Mamã, “nós só pensamos que estivemos aqui...” –
os caçadores de raízes
vão para as florestas, arrancam
raízes-de-amor das clareiras virginais, dobram
os caules com as alças das pás
levantam-nas, o enorme,
grave, estrondo
final à medida que as raízes se separam do seu lugar.


4

Pegue numa chaleira
de água azul.
Ferva sobre um torcido lume
de cinzas de madeira. Moa a raiz.
Ponha dentro. Deixe macerar. Reaqueça
sobre as cinzas cinzas. Engarrafe.
Rolhe com um polegar
de um morto. Amadureça
por quarenta dias em esterco de cavalo
num lugar selvagem. Beba.
Durma.

E quando acordar –
se acordar – será no ano sótico
feito pelos selvagens crescidos
dos fragmentos todos inacabados
dos anos passados, sobras
e abandonos da mortalidade do tempo
não poderiam triturar para a sua refeição de sangue e riso.

E se houver mais um amor
a ser reconhecido, mais um poema
a ser aberto para a vida,
encontrá-lo-ás aqui
ou em lado algum. A tua mão mover-se-á
por si própria
ao longo da via curva, atraída
pelo terror e a lura medonha
do vácuo:

um rosto materializa-se nas tuas mãos,
na absoluta brancura de páginas
um poema escreve-se a si mesmo: o seu título – o sonho
de todos os poemas e o texto
de todos os amores – “Ternura em relação à Existência.”


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 28-29

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Devendra Banhart - A sight to behold



It's a sight to behold
When you got small words to mold
And you can make 'em your own

Still love it would be much better
Love it would be much better
I'm told

It's like golden corn
And i love its golden glow
It's the little head inside your little hole
And out spring some sparkling thoughts

Still love it would be much better
Love it would be much better
Love it would be much better
Love it would be much better

It's like finding home
In an old folk song
That you've never ever heard
Still you know every word
And for sure you can sing along

But love it would be much better
Love it would be much better
Love it would be much better
Love it would be much better
I know, I know

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Galway Kinnell - Cara estranha existindo na memória junto ao Juniata azul


1
Após ter desistido
do porteiro, desmaiado
sob o seu relógio, que deveria ter batido
é de manhã
na porta de chapa fechada pela polícia,

posso ouvir o tino
do pequeno sino sacro, da Velha Torre, errando
pela cidade – quimo
dos nossos amores
a peristalse da vontade de amar para sempre
guia-nos, grão
após grão, até ao último,
o mais frio dos quartos, que é a memória –

e escutar os vermes
habitando debaixo das camas onde velhos morreram
rastejando cá para fora,
furando pelo cérebro e cortando
os nervos que guardam o livro da solidão.

2
Caro Galway,
          Começou tarde numa noite de Abril em que não conseguia dormir. Era a escuridão da lua. A minha mão ficou dormente, o lápis correu pela página guiando-se no seu caminho por não sei que razão. Desenhou círculos, oitos e mandalas. Chorei. Tive de largar o lápis. Eu tremia. Fui para a cama e tentei rezar. Por fim acalmei-me. Depois senti a minha boca abrir-se. A minha língua moveu-se, a minha respiração não era mais minha. O sussurro que forçou a sua saída pelos meus dentes disse, Virginia, os teus olhos brilham para mim do meu mundo. Oh Deus, pensei. A minha respiração diminuiu, o meu coração abriu-se. Oh Deus, pensei, agora tenho um demónio como amante.

A sua, sem fé nesta vida,
Virginia


in Galway Kinnell, The Book of Nightmares, Boston & New York, Houghton Mifflin Company, 1971: 27-28.