domingo, 26 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



20) Os corpos são diferenças. São, portanto, forças. Os espíritos não são forças: são identidades. Um corpo é uma força diferente de muitas outras. Um homem contra uma árvore, um cão em frente de um lagarto. Uma baleia e uma lula. Uma montanha e um glaciar. Tu e eu.

21) O corpo é uma diferença. Como é uma diferença com todos os outros corpos – uma vez que os espíritos são idênticos – ele nunca pára de se diferenciar. Ele difere igualmente de si. Como pensar, junto a um e a outro, o bebé e o velho?

22) Diferentes, os corpos são, de qualquer modo, disformes. Um corpo perfeitamente formado é um corpo enfadonho, indiscreto no mundo dos corpos, inaceitável. É um projecto, não é um corpo.

23) Do corpo destaca-se a cabeça, sem que seja necessário decapitá-la. A cabeça está, por si mesma, destacada, deduzida. O corpo é um conjunto, ele articula-se e compõe-se, organiza-se. A cabeça é feita de buracos, na qual o centro vazio representa muito bem o espírito, o ponto, a infinita concentração em si. Pupilas, narinas, boca, orelhas, são buracos, evasões cavadas fora do corpo. Pondo de parte os outros buracos, esses de debaixo, esta concentração de orifícios depende do corpo por um fino e frágil canal, o pescoço cruzado pela medula e vários vasos prontos a inchar ou a se romper. Uma fina ligação que conecta, numa dobra, o corpo complexo à cabeça simples. Nenhuns músculos nela, nada senão tendões e ossos de substância mole e cinzenta, circuitos, sinapses.

24) O corpo sem cabeça está fechado sobre si mesmo. Conecta os músculos entre eles, aperta os órgãos uns contra os outros. A cabeça é simples, combinação de alvéolos e de líquidos dentro de uma tripla envolvência (enveloppe).

25) Se o homem foi feito à imagem de Deus, então Deus tem um corpo. Talvez seja ele mesmo um corpo, ou o corpo eminente entre todos. O corpo de pensamento dos corpos.

26) Prisão ou Deus, não há meio: envolvente selado ou envolvente aberto. Cadáver ou glória, dobra ou desdobra.

27) Os corpos cruzam-se, raspam, pressionam, enlaçam-se ou chocam: tantos signos que se fazem, tantos sinais, endereçamentos, avisos que nenhum sentido definido alguma vez pode saturar. Os corpos fazem do sentido em todo o sentido. É por isso que o corpo parece tomar o seu sentido somente quando morre, congela. E daí, talvez, que interpretemos o corpo como tumba da alma. Na realidade, o corpo não pára de se mover. A morte congela o movimento que se deixa ir e renuncia a moção. O corpo é a moção da alma.

28) Um corpo: uma alma lisa ou enrugada, gorda ou magra, calva ou peluda, uma alma com inchaços ou feridas, uma alma que dança ou que mergulha, uma alma calosa, húmida, caída por terra…

29) Um corpo, uns corpos: não pode haver um só corpo, os corpos carregam a diferença. São forças postas e tensionadas umas contra as outras. O “contra” (ao encontro, de encontro, “tudo contra”) é a categoria maior do corpo. Ou seja, o jogo das diferenças, os contrastes, as resistências, as tomadas, as penetrações, as repulsões, as densidades, os pesos e medidas. O meu corpo existe contra o tecido das minhas roupas, os vapores do ar que ele respira, o brilho das luzes ou os afloramentos1 das trevas.


1 Optámos traduzir “frôlements”, que significa um toque rápido, ligeiro e superficial, por “afloramento” para manter o sentido de toque, como também para acrescentar o sentido de alguma coisa que brota, neste caso da/na escuridão.

Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

para habitar a comunidade ou justo o amor

não haverá nunca uma vida que entenda
uma vida       a ínfima fibra
secretamente exposta       dada
à carícia à usura

nada dizes e sentes
a raiz da noite e a seda do vento
por sobre os olhos e rosto
atendendo a primavera

escura é uma boca que procura
o nome que não há e assombra
e do medo semeia o tempo para
o sonho de perdurar depois de tudo

mas estrelas talco arroz são
do mesmo pó da tua pele
tinir de outro tom
nódulo em outra corda

conheces       contaram-te quando ainda a palavra
ladeava o mundo e se impunha
altiva       farol em fraga brava
o desnudar da glória       mas do fruto

ateou-se a candeia do ego
soberano que põe e depõe cada tom e corda o
pó       cada expressão ficando
sob a sua vontade       já nada

te assegura       os mitos estão ocos
e o sono chega pela meia-
-noite do homem
procuras ainda a distância

de toda a proximidade       o corpo a
corpo que lentamente enlaça a fibra
repara o entendimento é um acaso
como a palavra justa ou justo o amor

quando por estes caminhos andas e
tocas com o olhar a pedra
a árvore a ave o cão
a mulher a quem te fidelizaste

vês ainda o lume da glória rutilante
em tudo que te rodeia      sabes então
não é um corpo o que obsta o encontro do ínfimo
antes o rei que recusa a renuncia ao reino
para habitar a comunidade ou justo o amor

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)




10) O corpo é também uma prisão para a alma. Ela purga uma pena cuja natureza não é fácil de discernir, mas foi muito imponente. Isto porque o corpo é muito pesado e desconfortável para a alma. É preciso digerir, dormir, excretar, suar, sujar-se, magoar-se, adoecer.

11) Os dentes são as barras da clarabóia da prisão. A alma escapa-se pela boca em palavras. Mas as palavras são sempre eflúvios do corpo, emanações, dobras leves de ar saídas dos pulmões e aquecidas pelo corpo.

12) O corpo pode tornar-se falador, pensante, sonhador, imaginante. Ele sente a todo o tempo qualquer coisa. Ele sente tudo o que é corporal. Ele sente as peles e as pedras, os metais, as ervas, as águas e as chamas. Ele não pára de sentir.

13) Portanto quem sente é a alma. E a alma sente primeiro o corpo. Ela sente-o em todas as partes que a contêm e a retêm. Se ele a não retivesse, toda ela se escaparia em palavras vaporosas que se perderiam no céu.

14) O corpo é como um puro espírito: ele é inteiramente a si e de si, num único ponto. Se quebraramos esse ponto o corpo morre. É um ponto situado entre os dois olhos, entre as costas, no meio do fígado, em redor de todo o crânio, em plena artéria femoral, e ainda em muitos outros pontos. O corpo é uma colecção de espíritos.

15) O corpo é um envolvente: ele serve, pois, para conter aquilo que é preciso, depois, desenvolver.1 O desenvolvimento é interminável. O corpo finito contém o infinito, que não é nem a alma, nem o espírito, mas antes o desenvolvimento do corpo.

16) O corpo é uma prisão ou um deus. Não há meio. Ou melhor, o meio são os quadris, uma anatomia, um escorchado e nada disso é corpo. O corpo é um cadáver ou é glorioso. O que partilham um cadáver e um corpo glorioso é o esplendor radiante e imóvel: em definitivo, a estátua. O corpo realiza-se na estátua.

17) Corpo e corpo, lado a lado ou face a face, alinhados ou afrontados, o mais das vezes somente misturados, tangentes, tendo pouco a ver entre eles. Mas assim os corpos que não trocam propriamente nada enviam quantidades de sinais, de anúncios, piscares de olhos ou gestos sinaléticos. Uma olhadela bem-disposta ou altiva, uma crispação, uma sedução, uma cedência, um peso, um brilho. E tudo aquilo que podemos colocar sob as palavras “juventude” ou “velhice”, como “trabalho” ou “tédio”, como “força” ou “embaraço”… Os corpos cruzam-se, raspam-se, pressionam-se. Apanham o autocarro, atravessam a rua, entram no supermercado, sobem aos carros, esperam a sua vez na fila, sentam-se no cinema depois de ter passado à frente de dez outros corpos.

18) O corpo é simplesmente uma alma. Uma alma enrugada, oleosa ou seca, peluda ou calosa, áspera, lisa, crocante, flatulenta, irisada, nacarada, emplastrada, coberta de organdis ou camuflada de caqui, multicolor, coberta de óleo, de feridas, de verrugas. É uma alma em acordeão, trompete, ventre de viola.

19) A nuca é dura e é preciso sondar os corações. Os lóbulos do fígado cortam o cosmos. Os sexos humedecem-se.


1 No original lê-se: “Le corps est une enveloppe: il sert donc à contenir ce qu’il faut ensuite développer”. Optámos traduzir “enveloppe” por “envolvente”, e não por invólucro, de modo a manter o jogo que se estabelece, na língua francesa, com “développer”.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

cara na parede

supõe que a vida termina agora
despes-te lavas os dentes cerras
os punhos sobre o peito
aconchegas o corpo à sua solidão

a noite vai no sabor do canal
o gelo conhece a sua catástrofe
a primavera rompe a terra pela semente
mas ninguém ecoa a calçada no passo

tudo conhece o teu corpo
a noite e a rua enlaçam-te as mãos
e o rosto dá-se ao recontro do frio e do sangue
como o gelo a sua esquadria de acaso

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios do corpo



1) O corpo é material. É denso. É impenetrável. Se o penetramos, separamo-lo, esburacamo-lo, rompemo-lo.

2) O corpo é material. Encontra-se fora. Distinto dos outros corpos. Um corpo começa e acaba contra um outro corpo. Mesmo o vazio é uma espécie muito subtil de corpo.

3) Um corpo não está vazio. É pleno de outros corpos, de bocados, de órgãos, de peças, de tecidos, de rótulas, de anéis, de tubos, de alavancas e de foles. É igualmente pleno de si mesmo: é tudo o que ele é.

4) Um corpo é longo, largo, alto e profundo: tudo isso em grande ou pequena medida. Um corpo é superfície. Ele toca de cada lado noutros corpos. Um corpo é corpulento, mesmo quando é magro.

5) Um corpo é imaterial. É um desenho, um contorno, uma ideia.

6) A alma é a forma de um corpo organizado, diz Aristóteles. Mas o corpo é precisamente aquilo que desenha a forma. Ele é a forma da forma, a forma da alma.

7) A alma espalha-se através do corpo, diz Descartes, ela está completamente espalhada ao longo dele, precisamente nele, insinuada nele, metida, impregnante, tentacular, insuflante, modelante, omnipresente.

8) A alma é material, de toda uma outra matéria, uma matéria que nem tem lugar, nem tamanho, nem peso. Mas ela é material, muito subtilmente. Também ela escapa à vista.


9) O corpo é visível, a alma não é. Percebe-se bem que um paralítico não pode mover a sua perna de bom modo. Não se percebe que um mau homem não possa mover a sua alma de bom modo: mas devemos pensar que é um efeito de uma paralisia da alma. E que é preciso lutar contra ela e fazê-la obedecer. Eis o fundamento da ética, meu caro Nicómaco.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

para uma vida anelante

só é feliz quem não sonha      isso
é claro      fecham-se os olhos deixa-se o mundo
com os seus círculos mais interiores
do medo cercar a vida calar
a criança curiosa

traz-se tudo para junto de si
a terra o muro a casa
o tempo por exemplo igual
um dia a outro dia
calculado amanhã

porque insuflas no ontem o ouro dizes
como era belo e bom outrora      deus
e o diabo estão no detalhe das horas
ajuizadas e sem ninguém

os anos passam escorrem sem alarmes
por ti      a erva daninha do acaso não medra
no coração purificado pelo
sal da razão aterrorizada

o teu rosto estará marcado
pela biologia      confundi-lo-ás quando
as mãos o acariciarem antes do último sono
pela casca rugosa de uma árvore      se te cortassem
verias um coração desanelado

Informação - Nova exposição na Sede, hoje, 22h00




Inauguração da nova exposição na Sede, 3 de Fevereiro, 22h00

"Erradia - Desenho Aberto", de Paulo Ansiães Monteiro, é a nova exposição da Sede. Inaugura na próxima sexta-feira, 3 de Fevereiro, às 22h00.
Pintor, ilustrador, criador de livros, performer, colaborador de editores, músicos, cineastas, escritores, Paulo Ansiães Monteiro é um artista que escapa a classificações e categorias simples. “Erradia – Desenho Aberto” inclui alguns dos trabalhos mais representativos do artista e numerosos inéditos. Para descobrir até 1 de Abril.

Contamos com todos.
ªSede fica na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, em asede.pt ou nofacebook.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Carta de Hamburgo VI

das lágrimas pouco sabes
o que fizeste       a ternura
soçobrou nos braços do inverno
como os escombros de uma noite
se alojam nos músculos

desligas o ruído que avisa
a vinda do dia antes do amanhecer
todas dormem ainda o sono justo      mal dão
conta do teu despertar      a cada uma
deixas uma carícia permites à mão a linguagem
do afecto      há ainda uma força que te enleva      suavemente
fechas a porta és agora uma máquina cortando pela cidade e
o frio     encapuzado segues como um cenobita do capital

vestido de negro viúvo de futuro serves o
pequeno-almoço à ingratidão
à usura e indelicadeza que sabem teres
declinado os sonhos em troco de independência
a cada chamada de atenção indevida reconheces
o prazer no rosto de quem te segura
pelos fios e te enlaça um nó corrediço
e algo freme da raiz dos dentes aos neurónios dos dedos

quando na rua cheiras o óleo e a humidade da beira-rio
sentes a raiva sedimentar-se nas tuas pernas
como a lama do Elba e metade do teu coração
ajoelha-se como o ramo
velho sob o peso da neve e gelo e
soluça que partas por esse rio acima
pedras nos bolsos ou cabeça no horizonte para os lados
do sol-pôr enquanto a outra metade alocada a três vidas
sopra uma brisa ao dente de leão do teu pensamento
e embala a ira     o desgosto     amolece a máquina

pelo caminho a força que te enleva das metades faz
um único para todas as metáforas e a carne     pelo canto
do olho deslindas ainda a secreta alegria de amar e ser
amado nos saltos em ser
cheirado nos beijos no olhar silenciado
no meio dele as lágrimas e a ternura reencontradas
o inverno passa como só mais uma estação na vida

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Besta


No princípio ele era um bisonte,
Rei do disco, o meu animal da sorte.
Era fácil respirar na sua herdade arejada.
O sol punha-se no seu sovaco.
Nada apodreceu. Os pequenos invisíveis
Serviam-no das mãos aos pés.
As irmãs deprimidas transferiram-me para outra escola.
O macaco viveu sob o chapéu de burro.
Continuou a enviar-me beijos.
Eu mal o conhecia.

Ele não se vai livrar de:
Patasresmungonas, lacrimante e pesaroso,
Fido Pequen'alma, o familiar intestino.
Um cesto do lixo é suficiente para ele.
As trevas o seu osso.
Chamem-no por qualquer nome, ele virá à chamada.

Poço de lama, cara de chiqueiro feliz.
Casei-me com um armário de lixo.
Deito-me numa poça de peixe.
Aqui em baixo o céu está sempre a cair.
A pocilga fica à janela.
Os insectos estrelados não me vão salvar este mês.
Tomo conta da casa no esgoto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa de Nada,
Noiva do Cabelo-de-presas.

Sylvia Plath in Crossing the water - transitional poems

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Informação - Virgilio Piñera na Sede, 28 de Janeiro, 17h00



Virgilio Piñera com Rosa Azevedo e Duarte Pereira na Sede, 28 de Janeiro, 17h00.

No próximo sábado, 28 de Janeiro, pelas 17h00, ªSede abre as portas à grande literatura de Virgilio Piñera, com uma leitura de contos por Rosa Azevedo e Duarte Pereira.

O pretexto é a recente edição da primeira antologia de Piñera lançada em Portugal, "O Grande Baro e outras histórias", da editora Snob (Colecção Pedante).

O momento é único e a entrada é livre.
Contamos com todos.

ªSede fica na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, em asede.pt e também no facebook.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Michelle Gurevich (aka Chinawoman) - where goes the night



Tell me again Where goes the night A place untouched by time
The streets I knew as a child It's all still there Where goes the night Our summers play on repeat Where goes the night In stone stands a kiss From an ancient time The kindness gone unseen Now in sight Sleep tight They're doing fine Where goes the night The seasons are outsmarted Where goes the night The leaves we thought departed They're alright Your eyes still gleaming in the dark When you were mine I'll always find Where goes the night

domingo, 8 de janeiro de 2017

[terra de cristal sob o canto de bandos]

terra de cristal sob o canto de bandos
gansos e gaivotas solapam o lago
nómadas
só com grito dizem
é este o lugar

terra polida
administrada a gelo e sal
dá o passo e o risco

desliza como pela vida
e a cada avanço faz
da voz o lugar

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Apresentação - Filosofia e as Artes


participação com o poema:

Auto-retrato Nu de 1910 a 2015

corpo suspenso e envolto
em aura branca neblina
e mãos que obstam o que vem

indefeso na sua nudez
sua quase magreza mostra
a tensão do combate

o corpo tornado arena às forças
ex-posto justo ao limiar o esgotamento
marca-se no rosto patético

torção do torso quase desistência
posição de último recurso antecedendo
o desfalecimento a última palavra a que se silencia

corpo cujas mãos e rosto aduzem
bem para além da angústia
o desvanecer o dissipar

– talvez essa aura em torno da linha
aprumada e definida do corpo seja o esfumar
de uma vida a caminho da impercepção –

 do homem
rosto mãos
pedem o nosso auxílio

(revisitação deste aqui publicado)

ZOMBIE OU O CORPO INGLORIOSO: UMA LEITURA DE NIGHT OF THE LIVING DEAD DE GEORGE ROMERO COM GIORGIO AGAMBEN



o artigo/ensaio pode ser lido aqui

sábado, 24 de dezembro de 2016

Feliz natal e bom ano! merry christmas and happy new year! joyeux nöel et bonne année! frohe weihnachten und scön sylvester!

Julio Cortázar - Los Amantes



Quem os vê andar pela cidade
se todos estão cegos?
Eles dão as mãos: algo fala
entre os seus dedos, línguas doces
lambem a palma húmida, correm pelas falanges,
e ao alto está a noite plena de olhos.

São os amantes, a sua ilha flutua à deriva
para mortes de relvado, para portos
que se abrem entre lençóis.
Tudo se desordena através deles,
tudo encontra o seu signo escamoteado;
mas eles nem sequer sabem
que enquanto rodam na sua arena amarga
há uma pausa no trabalho do nada,
o tigre é um jardim que joga.

Amanhece nos carros do lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre as suas portas.
Os amantes rendidos olham-se e tocam-se
uma vez mais antes que o dia cheire.

Já estão vestidos, já vão pela rua.
E é só então quando estão mortos,
quando estão vestidos,
que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os deveres quotidianos.

(versão minha)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Informação - Sábado de Douda Correria na Sede, 10 de Dezembro


Sábado de Douda Correria na Sede, 10 de Dezembro, a partir das 17h00.


Sábado, 10 de Dezembro, ªSede recebe três autores essenciais da editora Douda Correria: Margarida Vale de Gato, João-Paulo Esteves da Silva e Nuno Moura, que é também o editor.

A tarde começa com o lançamento de "Lançamento", o magnífico e mais recente livro de Margarida Vale de Gato, com apresentação, conversa e leitura de textos pela autora. 

Segue-se a leitura de excertos de "Tâmaras", de João-Paulo Esteves da Silva, e de "Clube dos Haxixins", de Nuno Moura, com direito a perguntas e respostas.

Durante esta sessão haverá outros livros do catálogo da Douda Correria, disponíveis para venda a leitores, coleccionadores e turistas. 

Continua também a exposição "Artes Plásticas", de José Cardoso, até 28 de Janeiro.

Contamos com todos na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, ou em:
Site | Facebook.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Dar a voz a outros - part two of Baraa’s story

“I experienced the most difficult situation of my life last night. We received a 4 year old girl who was suffocating because she inhaled dust from the constant bombs that rain down on our city. Because of the overcrowding of patients in our hospital, by the time that it took me to go to the next room to get her oxygen and return, the baby girl was dead.
I can still hear the screams of her father. His screams filled the hospital as he was mourning the loss of his baby girl.
Besides trying to save the lives of our patients, the most difficult task assigned to the medical staff is delivering bad news to family members who have lost their loved ones.  
You leave the operating room and face families waiting to hear good news and you are the one who has to give them the worst news that anyone could possibly hear.
You become the messenger of death. You are the one telling a father that he has lost two of his daughters because we couldn’t rescue them.
You can hear the voices of those mourning getting louder and louder in the hospital. They can’t stand the shock.  Some of them lose their minds and start beating themselves, while others try to confirm what they have have heard by asking us over and over again, “Is it true? Answer me. Please tell me that my son didn’t die, please.”
They are so traumatized. Many of them blame us, cursing the doctors and every medical staff in sight.
There is not a moment in time when we don’t feel the overwhelming guilt of losing precious human life because of a lack of medical supplies, equipment, and time.  The guilt follows us every second of the day, along with with the voice of each person that has accused us of killing their beloved.
Sometimes I just stand helpless in front of my patients. I can’t give them basic necessities like heating, food, clean sheets or blankets, or even painkillers. And when my shifts comes, I visit my patients with nothing to console them with. They lay there, waiting for surgery, suffering from pain, hunger and cold and I suffer along with them.
Everyone here is devastated psychologically and physically. We have lost hope in everyone and everything. We would prefer if we all just died together, at the same time, with one big bomb. We die every moment that we face the death of our patients knowing that we can’t do anything to stop it.
If I got injured I wouldn’t want anyone to help me or treat me because being injured in this desperate situation is the worst thing that could happen to anyone.”

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Dar a voz a outros: Baraa, a nurse’s story

Baraa is a 23-year-old nurse in Eastern Aleppo. She writes to you about what life is like in a city where hospital workers and staff are targeted and medical supplies are running out.

“I did not study nursing. I was a student of Biomedical engineering but I had to cut my studies short because of the war. It was my dream to study medicine, and ironically that dream came true while my other dreams vanished because of the war.
It’s really hard to be a nurse in Eastern Aleppo. It just got much harder because all of the hospitals and medical points have been bombed out of service.
We’ve had to move our operations and patients to homes. We prepare the homes the best way we can so that we can receive as many patients as possible. But there are never enough medical supplies, especially sterilization tools and painkillers. We can’t offer our patients the most basic medical care.
We can't even give our patients clean blankets. They are forced to use blankets filled with the blood of other patients. They don’t have a choice. The cleaning lady can’t find the time to wash or dry the blood-stained blankets. Patients die smelling their own blood. They die because of the lack of sterilisation and cold. We are constantly receiving huge influxes of civilians injured due to the shelling and bombing, which puts us under extreme and constant pressure to address all of their needs at once.
Many errors have been made because we are overloaded with patients and have a  shortage of medical staff.There are situations where we have patients die while waiting on a major surgery because our doctors are so busy attending to dozens of other patients who are also in desperate need of medical care. We lose patients that could’ve been saved if we had seconds to spare.
One of the critical care nurses named Keffah was killed the day before yesterday. With the death of every doctor or nurse we die more and more.
And there is no time to rest or eat.  Not even for a minute. Doctors and nurses eat while working. Even if we did find the time to sleep, we can’t stop thinking of the people that are dying while we are resting.
The pictures or quotes that you see in the media can’t even begin to convey the intense fatigue and feeling of helplessness we are facing in this city. This tragic situation has stopped me from having a life. I'm not married. I have no time to study or for personal activities. I no longer have the time to even check on my mother.  The only time that I can see her is when I’m supposed to be sleeping.
I haven’t sat down once since yesterday at 6am till 6pm this evening. But I will continue my work so that everyone knows we did our best to save people from this tragic situation we are in. Even if they destroyed every single hospital in Eastern Aleppo, we will never give up. We will continue working to help the injured and sick. If our hospital gets bombed, we will move to the next hospital and continue our work.
Even if it ultimately costs me my life, I have nothing left to lose." 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Ménada

Uma vez fui ordinária:
Sentada à beira do feijoeiro
Comendo os dedos da sabedoria.
Os pássaros deram leite.
Quando relampejou escondi-me sob uma pedra plana.

A mãe das bocas não me amava.
O ancião encolheu até ser uma boneca.
Oh sou tão grande para voltar atrás:
Leite de pássaro é penas,
As folhas do feijoeiro são mudas como mãos.

Este mês é feito para pequenos.
Os mortos amadurecem nas videiras.
Uma língua rubra está entre nós.
Mãe, afasta-te do meu celeiro
Estou a tornar-me outra.

Cabeça de cão, devoradora:
Alimenta-me com bagas das trevas.
As pálpebras não se fecham. O tempo
Desencorda-se do enorme umbigo do sol
As suas intermináveis cintilações.

Eu devo engoli-las todas.

Senhora, quem são aqueles outros na cuba da lua –
Bêbados de sono, os seus membros ao acaso?
Nesta luz o sangue é negro.
Diz-me o meu nome.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen - I have not lingered in European monasteries

I have not lingered in European monasteries
and discovered among the tall grasses tombs of knights
who fell as beautifully as their ballads tell;
I have not parted the grasses
or purposefully left them thatched.
I have not held my breath
so that I might hear the breathing of God
or tamed my heartbeat with an exercise,
or starved for visions.
Although I have watched him often
I have not become the heron,
leaving my body on the shore,
and I have not become the luminous trout,
leaving my body in the air.
I have not worshiped wounds and relics,
or combs of iron,
or bodies wrapped and burnt in scrolls.
I have not been unhappy for ten thousands years.
During the day I laugh and during the night I sleep.
My favourite cooks prepare my meals,
my body cleans and repairs itself,
and all my work goes well.

Adeus, adiós, adio, adieu, goodbye, aufwiedersehen... Mr. Leonard Cohen



It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening
I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train, and
You came home without Lili Marlene
And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife
Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well, I see Jane's awake
She sends her regards
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way
If you ever come by here, for Jane or for me
Well, your enemy is sleeping, and his woman is free
Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried
And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely, L Cohen

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Sonic Youth - Beauty lies in the eye



There's something in the air there
Makes you go insane
Brings you back to me
It's been so long
All that I have to do
Is live along
It's coming coming down
Over me
Do you want to see
The explosions in my eye
Do you want to see
The reflection of
How we used to be
Beauty lies
In the eyes of anothers dreams
Beauty lies
Lost in anothers dream
It's coming coming down
Over me
Do you want to see
The explosions in my eye
Do you want to see
The reflection of
How it used to be

Hey baby
Hey sweetheart
Hey fox come here
Hey beautiful
Come here sugar