terça-feira, 25 de abril de 2017

para um outro dia lázaro

o dia       todo o dia       é um
peso       primeiro sob as asas
depenadas       mortalha de inverno
cobrindo-te durante a tua ausência
de corpo presente

depois enquanto langor
lenta travessia pelo lamaçal
sobre pedra e alcatrão

até a angústia de agrilhoar à cadeira
e só os olhos
                    entregues à balística
tocam o mundo

por fim enrodilha-se o frio
e cansaço ou morfeu impõem-se
como a gravidade pende a luz
para um outro dia lázaro

segunda-feira, 24 de abril de 2017

de mão suspensa

com a escrita adio a morte

quando a mão se suspende
no ar       falcão ao alto de olhar
vertical no ataque
a cada palavra       a morte instala-se
no intervalo da escolha
no pensamento

adia a escrita

quarta-feira, 19 de abril de 2017

versão

na ardósia, pendurada na parede exterior do restaurante, lia-se o seguinte:

April, April der
macht was er will
bald ist's vorbei,
dann ist endlich Mai!

esta é a minha versão:

Abril, Abril,
Abril de águas mil
em breve passarás
e vem Maio de jacarandás

sexta-feira, 14 de abril de 2017

aurora, crepúsculo

os lábios
atam a aurora ao corpo
magnólias*
sob as águas de abril

todavia o crepúsculo
já te tolda os olhos
rarifica
os beijos


* pedimos desculpa, era de facto a flor de magnólia que aqui deveria estar e não do rododendro, sem qualquer reenvio a poemas de LNJ ou HH.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Sankt Peter-Ording

um deserto para máquinas a vento
do carro à vela ao coração tornado
papagaio       também aqui repetimos
a semelhança da paisagem ao fim
do mundo       essa ideia dada
pelas imagens paradas ou em movimento
a revelação inatendida

ela

a mulher recolhida
caminhando pelo areal a teu lado

faz tudo para a criação

e tu

homem cabisbaixo
enegrecendo a pérola

tudo destróis

sexta-feira, 24 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (conclusão)




50) A denegação dos tipos, tanto individuais como colectivos, é uma consequência do imperativo do anti-racismo que se nos tornou necessária assumir. Pobre necessidade, embora, que nos obriga a apagar esses ares de família, essas semelhanças vagas mas persistentes, essas misturas comoventes ou graciosas de efeitos da genética, da moda, das divisões sociais, das idades, e no meio das quais emerge com um maior relevo o incomparável de cada um(a).

51) Grão de beleza: a língua francesa chama assim essas partículas castanhas ou negras, ligeiramente salientes, que fazendo por vezes (e sobre alguns tantas vezes) um ponto, marca ou mancha sobre a pele. No lugar de colorirem a pele, fazem sobressair a brancura, é, pelo menos, como gostamos de dizer no tempo em que a neve ou o leite servem de comparativo, por excelência, para a pele das mulheres. Elas surgem então, necessariamente, como “moscas” de veludo sobre as bochechas ou sobre a garganta. Hoje em dia, apreciam-se mais as peles morenas, douradas ou bronzeadas, mas o grão de beleza mantém o seu atractivo: assinala a pele, baliza o seu lugar e configura-a, conduz o olho e age sobre ele como uma nota de desejo. Por um momento, gostar-se-ia de dizer que o grão de beleza é uma semente de desejo, uma minúscula elevação de intensidade, um corpúsculo no qual o tom mais escuro concentra uma energia do corpo inteiro, como igualmente faz a ponta do seio.

52) O corpo segue por espasmos, contracções e relaxamentos, dobras, desdobramentos, enodoamentos e desvinculações, torções, sobressaltos, soluços, descargas eléctricas, relaxamentos, contracções, tremores, choques, arrepios, erecções, súbitos saltos, começos. Corpo que se eleva, se abisma, se atormenta, se despele e se esburaca, se dispersa, pulula, esguicha quer pus ou sangre, humedece ou seca ou supura, ronca, geme, murmura, estoura e suspira.

53) O corpo produz a auto-imunidade da alma, no sentido técnico desse termo médico: ele defende a alma contra si mesma, impede que ela seja completamente absorvida pela íntima espiritualidade. Ele provoca uma rejeição da alma pela própria alma.

54) O corpo, a pele: tudo o resto é literatura anatómica, fisiológica e médica. Músculos, tendões, nervos e ossos, humores, glândulas e órgãos são ficções cognitivas. São formalismos funcionalistas. Mas a verdade é a pele. Está na pele, é feita pele: autêntico campo exposto, toda virada para o exterior enquanto, simultaneamente, envolve o interior, um saco repleto de borborismos e fetidez. A pele toca e faz-se tocar. A pele acaricia e afaga, magoa-se, arranha-se, comicha. É irritável e excitável. Ela apanha o sol, o frio e o calor, o vento, a chuva, ela inscreve marcas no interior – rugas, manchas, verrugas, escoriações – e marcas no exterior, por vezes as mesmas ou então fendas, cicatrizes, queimaduras, cortes.

55) Corpo oxímoro polimorfo: dentro/fora, matéria/forma, homo/heterológico, auto/alónimo, crescer/excrescer, meu/nada1.

56) Corpo indexado: há alguém, há alguém que se esconde, que mostra o fim da orelha, alguém ou alguma, qualquer coisa ou qualquer signo, qualquer causa ou qualquer efeito, há aí uma qualquer maneira de “aí”, de “lá”, tão próximo, assaz longe…

57) Corpo tocado, tocante, frágil, vulnerável, sempre mudando, fugitivo, esquivo, evanescente sob a carícia ou a batida, corpo sem casca, pobre pele estendida sobre uma caverna onde flutua a nossa sombra…

58) Porquê 58 indícios? Porque 5 + 8 = aos membros do corpo, braços, pernas e cabeça e as 8 regiões do corpo: as costas, o ventre, o crânio, o rosto, as nádegas, o sexo, o ânus, a garganta. Ou então porque 5 + 8 = 13 e 13 = 1&3, 1 valendo pela unidade (um corpo) e 3 valendo pela incessante agitação e transformação que circula, se divisa e se excita entre a matéria do corpo, sua alma e seu espírito… Ou melhor ainda: o arcano XIII do tarôt designa a morte, e a morte incorpora o corpo no indestrutível corpo universal das lamas ou dos ciclos químicos, dos aquecimentos e das explosões estelares…

59) Surge, por consequência, o quinquagésimo nono índice, o supranumerário, o excedentário – o sexual: os corpos são sexuados. Não existe corpo unissexo, como hoje em dia se diz de certas roupas. Um corpo é, pelo contrário, de parte a parte, também um sexo: também seios, uma verga, uma vulva, testículos, ovários, características ósseas, morfológicas, fisiológicas, um tipo de cromossoma. O corpo é sexuado por essência. Essa essência determina-se como a essência de uma relação de uma a outra essência. O corpo determina-se assim como essencialmente relação, ou em relação. O corpo relaciona-se com o ou ao corpo do outro sexo. Nessa relação, haverá uma sua corporeidade pois afecta o sexo no limite: ela goza, ou seja o corpo é sacudido em todo o seu redor. Cada uma das suas zonas, gozando por si, emite para o exterior a mesma vivacidade. A isso chama-se alma. Mas o mais das vezes isso deixa-se ficar preso pelo espasmo, no soluço ou no suspiro. O finito e o infinito cruzam-se, trocam-se num instante. Cada um dos sexos pode ocupar a posição do finito ou do infinito.

1 Impossível de manter, aqui, o jogo proposto por Nancy entre mien e rien.

Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

segunda-feira, 13 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



40) O corpo é o em si do para si. Na relação a si, ele é o momento sem relação. É impenetrável, impenetrado, silencioso, surdo, cego e privado de tacto. É maciço, grosso, insensível, não afectado. Ele é também o em si do para os outros, virado para eles mas sem qualquer por eles. Ele é somente efectivo – mas é-o absolutamente.

41) O corpo guarda o seu segredo, esse nada, esse espírito que não habita nele mas está disseminado, dispersado, expandido ao longo e tanto que o segredo nada esconde, nenhum retiro íntimo onde, um dia, seria possível ir descobri-lo. O corpo nada guarda: guarda-se como segredo. Porque o corpo morre e leva o segredo para o túmulo. E só a custo temos alguns indícios da sua passagem.

42) O corpo é o inconsciente: as sementes dos seus antepassados sequenciadas nas suas células, e os sais minerais ingeridos, e os moluscos acariciados, pedaços de madeira quebrados e os vermes que consomem o cadáver debaixo da terra, ou então a chama que o incinera e a cinza que se deduz e o resume num impalpável pó, e as pessoas, plantas e animais que ele cruza e passa rente, e as lendas das amas de antanho, e os monumentos arruinados cobertos de líquenes, e as turbinas enormes das fábricas que produzem ligas inéditas das quais fará próteses, e os fonemas rudes ou chiados cujo ruído fala a sua língua, e as leis gravadas nas estelas e os secretos desejos de morte ou imortalidade. O corpo toca em tudo do fundo secreto dos seus dedos ossudos. E tudo acaba por fazer corpo, até mesmo o corpus da poeira que se aglomera e dança um vibrante baile no mais fino raio de luz onde termina o último dia do mundo.

43) Porquê indícios mais do que caracteres, signos, marcas distintivas? Porque o corpo escapa, nunca está assegurado, deixa-se suspeitar mas não identificar. Ele pode sempre ser nada mais que uma parte de um corpo maior, que se leva para casa, no seu carro ou no seu cavalo, burro, colchão. Ele pode ser nada mais que um duplo desse outro corpo, tão pequeno e vaporoso, que chamamos de alma e que sai da sua boca mal morre. Possuímos, somente, indícios, traços, impressões, vestígios.

44) A alma, o corpo, o espírito: a primeira é a forma do segundo e o terceiro a força que produz a primeira. O segundo é, pois, a forma expressiva do terceiro. O corpo exprime o espírito, ou seja o meio de se jorrar para fora, de apertar a seiva, puxar o suor, arrancar a faísca e lançar tudo para o espaço. Um corpo é uma deflagração.

45) O corpo é nosso e é-nos próprio na exacta medida em que ele não nos pertence e se furta à intimidade do nosso próprio ser, se alguma vez esse aí existir, pelo qual, precisamente, o corpo nos faz seriamente duvidar. Mas nessa medida, que não sofre qualquer limitação, o nosso corpo é não somente nosso mas nós, nós mesmos, o mesmo será dizer até à sua morte e sua decomposição, na qual podemos e somos decompostos identicamente.

46) Porquê indícios? Porque não existe a totalidade do corpo, nenhuma unidade sintética. Há peças, zonas, fragmentos. Há um fim depois outro, um estômago, uma sobrancelha, uma minúscula unha, um ombro, um seio, um nariz, um intestino delgado, um canal do colédoco, um pâncreas: a anatomia é interminável, sustentada pela enumeração exaustiva das células. Mas esta última não faz a totalidade. É preciso, pelo contrário, recomeçar, o quanto antes, toda a nomenclatura por descobrir, se se puder, o traço da alma impressa sobre cada bocado. Mas os bocados, as células, mudam enquanto a contagem enumera em vão.

47) A exterioridade e a alteridade atingem o insuportável: a dejecção, a porcaria, o ignóbil desperdício, que ainda faz parte dele, que é ainda sua substância e sobretudo sua actividade, uma vez que é preciso que a expulse e que não é um dos seus menores serviços. Do excremento ao crescimento das unhas, dos pêlos ou de toda a espécie de verrugas ou malignidades purulentas, é preciso que ele os mande fora e separe de si o resíduo ou o excesso desses processos de assimilação, o excesso da sua própria vida. Disso, não se quer nem falar, nem ver, nem sentir. Sente-se vergonha e todos os tipos de desconfortos e constrangimentos quotidianos. A alma impõe o silêncio sobre toda uma parte do corpo, da qual ela é a própria forma.

48) Precisão do corpo: aqui, em nenhum outro lugar. É no fim do dedo gordo do pé, é na base do esterno, é no mamilo do seio, à direita, à esquerda, ao alto, em baixo, em profundidade ou na superfície, é difuso ou pontual. É dor ou prazer, ou antes, simples transmissão mecânica como esses toques do piano na polpa dos meus dedos. Mesmo o que é descrito de uma sensação qualquer como difusa observa a precisão do “difuso”, que irradia a cada vez de uma maneira bem precisa. A precisão do espírito é matemática, a da alma é física: ela expõe-se em gramas e milímetros, numa facção de ejecção ou rapidez de sedimentação, em coeficiente respiratório. A anatomia nada tem de redutor, contrariamente ao que pensam os espiritualistas: é, pelo contrário, a extrema precisão da alma.

49) Imprecisão do corpo: eis um homem por volta dos quarenta, muito seco e olhar nervoso, ar preocupado, talvez um pouco fugidio. Caminha com uma certa rigidez, poderá ser um professor ou médico, ou talvez ainda juiz ou administrador. Não é muito cuidadoso com a sua roupa. Tem as maçãs do rosto altas e a tez ligeiramente bronzeada: é, sem dúvida, mais de ascendência mediterrânica, em qualquer caso de todo nórdico. Além disso, é de estatura média. Presumimo-lo desajeitado, perguntamo-nos se terá autoridade ou decisão. Duvidamos do seu amor-próprio. É possível continuar neste registo, já que há tantos indícios dispersados num só e único corpo. Certamente, enganar-nos-emos em muitos pontos, talvez sobre todos. Mas não nos saberíamos absolutamente perdidos, a menos que um disfarce concebido com uma arte consumada nos possa enganar. Esse disfarce terá de pedir emprestado os seus traços a um qualquer fundo típico, esquemático, de espécie ou de género. Porque existem tipos humanos (há-os igualmente entre os animais). São, de forma indemne, biológicos ou zoológicos, fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais, têm constantes de nutrição ou educação, de diferenciação sexual e de trabalho, a condição, a história: mas imprimem a sua tipologia, seja ao custo ou no seio de uma infinita diferenciação individual. Nunca poderemos dizer onde começa o singular e onde acaba o tipo.



Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

Informação - Performance na esfera pública


quarta-feira, 8 de março de 2017

Evangelist - Whirlwind Of Rubbish




When, when, when will we meet? When I'm outside the station A whirlwind of rubbish round my feet When, when, when will you come? With an army around you Will I turn on my toes, will I run? Will you strip the branches from the trees? For me... for me... for me The old life is over The old life is over When, when, when will we meet? Will you turn round and face me? The ship fallen far from it's fleet When, when, when will you come? With a handful of sky, paper thin moon on your tongue. Will you strip, the branches from the trees? For me... for me... for me The old life is over The old life is over

Queima das Bruxas





No mercado estão a empilhar paus secos.
Um matagal de sombras é um pobre agasalho. Eu habito
A imagem de cera de mim própria, um corpo de boneca.
A doença começa aqui: sou um alvo para bruxas.
Só o diabo pode comer o diabo para fora.
No mês das folhas rubras eu subo para uma cama de fogo.

É fácil culpar o escuro: a boca de uma porta,
A barriga da cave. Eles explodiram o meu atiçador.
Uma obscura mulher fragmentada tem-me encerrada numa gaiola de papagaio.
Que olhos tão grandes têm os mortos!
Sou íntima com um espírito peludo.
Fumo revoluta da boca deste jarro vazio.

Se eu sou pequena, eu não posso fazer qualquer mal.
Se não andar por aí, nada derrubarei. Assim disse,
Sentada debaixo de tampa de panela, pequena e inerte como um grão de arroz.
Eles estão a erguer as tochas, anel após anel.
Estamos repletas de goma, as minhas pequenas companheiras brancas. Crescemos.
Dói ao início. As línguas vermelhas irão ensinar a verdade.

Mãe de carochas, descerra apenas a tua mão:
Eu voarei pela boca da candeia como uma traça complicada.
Dá-me a minha forma de volta. Estou pronta a construir os dias
Eu copulo com o pó na sombra de uma pedra.
Os meus tornozelos clareiam. A claridade sobe pelas minhas ancas.
Estou perdida, estou perdida, na túnica de toda esta luz.

in Sylvia Plath, Crossing the water - transitional poems

terça-feira, 7 de março de 2017

do maior silêncio a mais longa fala

só existe tu e eu
quando falamos ou se
instala o silêncio entre os olhos

raro o encontro de realidades
estrelas introvertidas       o longo pouso de uma
borboleta na mão esquecida
sobre o joelho       destemida aranha
confundindo o teu cabelo molhado pelo seu
templo após o dilúvio

raro       mais ainda       do maior silêncio
a mais longa fala
diálogo a cinzel       abraço adiado a meio da
cozinha como no fim de uma peregrinação

só tu e eu existe e a devastação
de sonhos
a torrente imparável da vida em catadupa
essa cadeira empenada
lançada por outra mão em desequilíbrio
a cada novo soerguer do chão

só tu e eu
teimosamente
sem desistir

segunda-feira, 6 de março de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



30) Corpo próprio: para ser próprio o corpo deve ser estrangeiro e assim descobrir-se apropriado. A criança olha a sua mão, o seu pé, o seu umbigo. O corpo é o intruso que só pela efracção pode penetrar no ponto presente a si que é o espírito. Este último é, além disso, tão pontual e apertado sobre o seu ser-a-si-em-si que o corpo somente consegue penetrar por exorbitância ou exogastrulando a sua massa como uma bossa, como um tumor fora do espírito. Tumor maligno, do qual o espírito não recupera.

31) Corpo cósmico: pouco a pouco o meu corpo toca tudo. O meu traseiro na minha cadeira, os meus dedos no teclado, cadeira e teclado na mesa, mesa no chão, o chão nas fundações, as fundações no magma central da terra e nas deslocações das placas tectónicas. Se sigo noutro sentido, pela atmosfera chego às galáxias e, enfim, aos limites sem bordo do universo. Corpo místico, substância universal e marioneta puxada por mil fios.

32) Comer não é incorporar, mas abrir o corpo ao que se engole, exalar o dentro com sabor de peixe ou figo. Correr é desdobrar esse mesmo interior em passadas, em ar vivo sobre a pele, em respiração apressada. Pensar bascula os tendões e as várias nascentes em jactos de vapor e em marchas forçadas sobre grandes lagos salgados sem horizonte discernível. Nunca há incorporação, mas sempre saídas, torções, evasões, recortes ou transbordos, cruzamentos, oscilações. A intussuscepção é uma quimera metafísica.

33) “Este é o meu corpo” = asserção muda e constante da minha única presença. Ela implica uma distância: “este”, eis aquilo que ponho à vossa frente. É “o meu corpo”. Duas questões se envolvem imediatamente: a quem envio esse “meu”? e se o “meu” marca a propriedade, qual a sua natureza? – Quem é, pois, o proprietário e qual a legitimidade da sua propriedade? Não há uma resposta para o “quem”, uma vez que esse é tanto o corpo como o proprietário do corpo, e não há “propriedade” já que é tanto direito natural como direito do trabalho ou conquista (assim eu cultivo e trato o meu corpo). “Meu corpo” envia, portanto, à inassinabilidade dos dois termos da expressão. (Quem te deu o teu corpo? Ninguém mais senão tu, porque não haveria qualquer programa suficiente, nem genético, nem demiúrgico. Mas então, tu antes de ti? Tu por trás do teu nascimento? E porque não? Não estou eu sempre nas minhas próprias costas e na proximidade de alcançar o “meu corpo”?)

34) Na verdade, “meu corpo” indica uma possessão, não uma propriedade. Melhor, uma apropriação sem legitimação. Eu possuo o meu corpo, eu trato-o como quero, tenho sobre ele o jus uti et abutendi. Mas, por sua vez, ele possui-me: ele puxa-me ou incomoda-me, ofusca-me, pára-me, impele-me, repele-me. Nós somos um par de possuídos, um casal de dançarinos demoníacos.

35) A etimologia de “possuir” estaria na significação de “estar/ser sentado sobre”. Eu estou sentado sobre o meu corpo, criança ou anão às cavalitas de um cego. O meu corpo está sentado sobre mim, esmagando-me com o seu peso.

36) Corpus: um corpo é uma colecção de peças, de bocados, de membros, de zonas, de estados, de funções. Cabeças, mãos e cartilagens, queimaduras, suavidades, jorros, sono, digestão, horripilação, excitação, respirar, digerir, reproduzir-se, reparar-se, saliva, sinóvia, torções, cólicas e grãos de beleza. É uma colecção de colecções, corpus corporum, cuja unidade é uma questão para si mesma. Mesmo a título de corpo sem órgãos, existem, quando mesmo, cem órgãos, cada qual atraindo para si e desorganizando o todo que nunca mais chega a se totalizar.

37) “Este vinho tem corpo”: põe-se na boca uma espessura, uma consistência que se acrescenta ao sabor; ele deixa-se tocar, acariciar e rolar pela língua entre as bochechas e contra o palato. Não se satisfará deslizando-o para o estômago, ele deixará a boca atapetada com uma película, uma fina membrana ou um sedimento do seu gosto e do seu tónus. Poder-se-á dizer: “este corpo tem vinho”: ele sobe à cabeça, solta vapores que entontecem e entorpecem o espírito, ele excita, incita ao toque para electrizar o seu contacto.

38) Nada é tão singular como a descarga sensível, erótica, afectiva que certos corpos produzem sobre nós (ou então, inversamente, a indiferença em que nos deixam certos outros). Tal conformação, tal tipo de magreza, tal cor de cabelos, um olhar, um espaçamento dos olhos, um movimento ou um desenho do ombro, do queixo, dos dedos, quase nada, mas um acento, uma dobra, um traço insubstituível… Não é a alma, mas o espírito de um corpo: o seu pico, a sua assinatura, o seu odor.


39) “Corpo” distingue-se de “cabeça” como de “membros” ou, pelo menos, de “extremidades”. Tendo isso em conta, o corpo é o tronco, o portador, a coluna, o pilar, o fundo da fundação. A cabeça reduz-se a um ponto; ela não tem, na verdade, uma superfície, é feita de buracos, orifícios e aberturas por onde saem e entram espécies diversas de mensagens. As extremidades, de modo semelhante, informam-se pelo meio ambiente e, por aí, executam certas operações (andar, alcançar, agarrar). O corpo permanece estranho a tudo isso. Ele está colocado sobre si, em si: não decapitado, mas a sua cabeça atrofiada e presa a ele como um alfinete.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)



20) Os corpos são diferenças. São, portanto, forças. Os espíritos não são forças: são identidades. Um corpo é uma força diferente de muitas outras. Um homem contra uma árvore, um cão em frente de um lagarto. Uma baleia e uma lula. Uma montanha e um glaciar. Tu e eu.

21) O corpo é uma diferença. Como é uma diferença com todos os outros corpos – uma vez que os espíritos são idênticos – ele nunca pára de se diferenciar. Ele difere igualmente de si. Como pensar, junto a um e a outro, o bebé e o velho?

22) Diferentes, os corpos são, de qualquer modo, disformes. Um corpo perfeitamente formado é um corpo enfadonho, indiscreto no mundo dos corpos, inaceitável. É um projecto, não é um corpo.

23) Do corpo destaca-se a cabeça, sem que seja necessário decapitá-la. A cabeça está, por si mesma, destacada, deduzida. O corpo é um conjunto, ele articula-se e compõe-se, organiza-se. A cabeça é feita de buracos, na qual o centro vazio representa muito bem o espírito, o ponto, a infinita concentração em si. Pupilas, narinas, boca, orelhas, são buracos, evasões cavadas fora do corpo. Pondo de parte os outros buracos, esses de debaixo, esta concentração de orifícios depende do corpo por um fino e frágil canal, o pescoço cruzado pela medula e vários vasos prontos a inchar ou a se romper. Uma fina ligação que conecta, numa dobra, o corpo complexo à cabeça simples. Nenhuns músculos nela, nada senão tendões e ossos de substância mole e cinzenta, circuitos, sinapses.

24) O corpo sem cabeça está fechado sobre si mesmo. Conecta os músculos entre eles, aperta os órgãos uns contra os outros. A cabeça é simples, combinação de alvéolos e de líquidos dentro de uma tripla envolvência (enveloppe).

25) Se o homem foi feito à imagem de Deus, então Deus tem um corpo. Talvez seja ele mesmo um corpo, ou o corpo eminente entre todos. O corpo de pensamento dos corpos.

26) Prisão ou Deus, não há meio: envolvente selado ou envolvente aberto. Cadáver ou glória, dobra ou desdobra.

27) Os corpos cruzam-se, raspam, pressionam, enlaçam-se ou chocam: tantos signos que se fazem, tantos sinais, endereçamentos, avisos que nenhum sentido definido alguma vez pode saturar. Os corpos fazem do sentido em todo o sentido. É por isso que o corpo parece tomar o seu sentido somente quando morre, congela. E daí, talvez, que interpretemos o corpo como tumba da alma. Na realidade, o corpo não pára de se mover. A morte congela o movimento que se deixa ir e renuncia a moção. O corpo é a moção da alma.

28) Um corpo: uma alma lisa ou enrugada, gorda ou magra, calva ou peluda, uma alma com inchaços ou feridas, uma alma que dança ou que mergulha, uma alma calosa, húmida, caída por terra…

29) Um corpo, uns corpos: não pode haver um só corpo, os corpos carregam a diferença. São forças postas e tensionadas umas contra as outras. O “contra” (ao encontro, de encontro, “tudo contra”) é a categoria maior do corpo. Ou seja, o jogo das diferenças, os contrastes, as resistências, as tomadas, as penetrações, as repulsões, as densidades, os pesos e medidas. O meu corpo existe contra o tecido das minhas roupas, os vapores do ar que ele respira, o brilho das luzes ou os afloramentos1 das trevas.


1 Optámos traduzir “frôlements”, que significa um toque rápido, ligeiro e superficial, por “afloramento” para manter o sentido de toque, como também para acrescentar o sentido de alguma coisa que brota, neste caso da/na escuridão.

Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

para habitar a comunidade ou justo o amor

não haverá nunca uma vida que entenda
uma vida       a ínfima fibra
secretamente exposta       dada
à carícia à usura

nada dizes e sentes
a raiz da noite e a seda do vento
por sobre os olhos e rosto
atendendo a primavera

escura é uma boca que procura
o nome que não há e assombra
e do medo semeia o tempo para
o sonho de perdurar depois de tudo

mas estrelas talco arroz são
do mesmo pó da tua pele
tinir de outro tom
nódulo em outra corda

conheces       contaram-te quando ainda a palavra
ladeava o mundo e se impunha
altiva       farol em fraga brava
o desnudar da glória       mas do fruto

ateou-se a candeia do ego
soberano que põe e depõe cada tom e corda o
pó       cada expressão ficando
sob a sua vontade       já nada

te assegura       os mitos estão ocos
e o sono chega pela meia-
-noite do homem
procuras ainda a distância

de toda a proximidade       o corpo a
corpo que lentamente enlaça a fibra
repara o entendimento é um acaso
como a palavra justa ou justo o amor

quando por estes caminhos andas e
tocas com o olhar a pedra
a árvore a ave o cão
a mulher a quem te fidelizaste

vês ainda o lume da glória rutilante
em tudo que te rodeia      sabes então
não é um corpo o que obsta o encontro do ínfimo
antes o rei que recusa a renuncia ao reino
para habitar a comunidade ou justo o amor

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios sobre o corpo (cont.)




10) O corpo é também uma prisão para a alma. Ela purga uma pena cuja natureza não é fácil de discernir, mas foi muito imponente. Isto porque o corpo é muito pesado e desconfortável para a alma. É preciso digerir, dormir, excretar, suar, sujar-se, magoar-se, adoecer.

11) Os dentes são as barras da clarabóia da prisão. A alma escapa-se pela boca em palavras. Mas as palavras são sempre eflúvios do corpo, emanações, dobras leves de ar saídas dos pulmões e aquecidas pelo corpo.

12) O corpo pode tornar-se falador, pensante, sonhador, imaginante. Ele sente a todo o tempo qualquer coisa. Ele sente tudo o que é corporal. Ele sente as peles e as pedras, os metais, as ervas, as águas e as chamas. Ele não pára de sentir.

13) Portanto quem sente é a alma. E a alma sente primeiro o corpo. Ela sente-o em todas as partes que a contêm e a retêm. Se ele a não retivesse, toda ela se escaparia em palavras vaporosas que se perderiam no céu.

14) O corpo é como um puro espírito: ele é inteiramente a si e de si, num único ponto. Se quebraramos esse ponto o corpo morre. É um ponto situado entre os dois olhos, entre as costas, no meio do fígado, em redor de todo o crânio, em plena artéria femoral, e ainda em muitos outros pontos. O corpo é uma colecção de espíritos.

15) O corpo é um envolvente: ele serve, pois, para conter aquilo que é preciso, depois, desenvolver.1 O desenvolvimento é interminável. O corpo finito contém o infinito, que não é nem a alma, nem o espírito, mas antes o desenvolvimento do corpo.

16) O corpo é uma prisão ou um deus. Não há meio. Ou melhor, o meio são os quadris, uma anatomia, um escorchado e nada disso é corpo. O corpo é um cadáver ou é glorioso. O que partilham um cadáver e um corpo glorioso é o esplendor radiante e imóvel: em definitivo, a estátua. O corpo realiza-se na estátua.

17) Corpo e corpo, lado a lado ou face a face, alinhados ou afrontados, o mais das vezes somente misturados, tangentes, tendo pouco a ver entre eles. Mas assim os corpos que não trocam propriamente nada enviam quantidades de sinais, de anúncios, piscares de olhos ou gestos sinaléticos. Uma olhadela bem-disposta ou altiva, uma crispação, uma sedução, uma cedência, um peso, um brilho. E tudo aquilo que podemos colocar sob as palavras “juventude” ou “velhice”, como “trabalho” ou “tédio”, como “força” ou “embaraço”… Os corpos cruzam-se, raspam-se, pressionam-se. Apanham o autocarro, atravessam a rua, entram no supermercado, sobem aos carros, esperam a sua vez na fila, sentam-se no cinema depois de ter passado à frente de dez outros corpos.

18) O corpo é simplesmente uma alma. Uma alma enrugada, oleosa ou seca, peluda ou calosa, áspera, lisa, crocante, flatulenta, irisada, nacarada, emplastrada, coberta de organdis ou camuflada de caqui, multicolor, coberta de óleo, de feridas, de verrugas. É uma alma em acordeão, trompete, ventre de viola.

19) A nuca é dura e é preciso sondar os corações. Os lóbulos do fígado cortam o cosmos. Os sexos humedecem-se.


1 No original lê-se: “Le corps est une enveloppe: il sert donc à contenir ce qu’il faut ensuite développer”. Optámos traduzir “enveloppe” por “envolvente”, e não por invólucro, de modo a manter o jogo que se estabelece, na língua francesa, com “développer”.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

cara na parede

supõe que a vida termina agora
despes-te lavas os dentes cerras
os punhos sobre o peito
aconchegas o corpo à sua solidão

a noite vai no sabor do canal
o gelo conhece a sua catástrofe
a primavera rompe a terra pela semente
mas ninguém ecoa a calçada no passo

tudo conhece o teu corpo
a noite e a rua enlaçam-te as mãos
e o rosto dá-se ao recontro do frio e do sangue
como o gelo a sua esquadria de acaso

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Jean-Luc Nancy - 58 indícios do corpo



1) O corpo é material. É denso. É impenetrável. Se o penetramos, separamo-lo, esburacamo-lo, rompemo-lo.

2) O corpo é material. Encontra-se fora. Distinto dos outros corpos. Um corpo começa e acaba contra um outro corpo. Mesmo o vazio é uma espécie muito subtil de corpo.

3) Um corpo não está vazio. É pleno de outros corpos, de bocados, de órgãos, de peças, de tecidos, de rótulas, de anéis, de tubos, de alavancas e de foles. É igualmente pleno de si mesmo: é tudo o que ele é.

4) Um corpo é longo, largo, alto e profundo: tudo isso em grande ou pequena medida. Um corpo é superfície. Ele toca de cada lado noutros corpos. Um corpo é corpulento, mesmo quando é magro.

5) Um corpo é imaterial. É um desenho, um contorno, uma ideia.

6) A alma é a forma de um corpo organizado, diz Aristóteles. Mas o corpo é precisamente aquilo que desenha a forma. Ele é a forma da forma, a forma da alma.

7) A alma espalha-se através do corpo, diz Descartes, ela está completamente espalhada ao longo dele, precisamente nele, insinuada nele, metida, impregnante, tentacular, insuflante, modelante, omnipresente.

8) A alma é material, de toda uma outra matéria, uma matéria que nem tem lugar, nem tamanho, nem peso. Mas ela é material, muito subtilmente. Também ela escapa à vista.


9) O corpo é visível, a alma não é. Percebe-se bem que um paralítico não pode mover a sua perna de bom modo. Não se percebe que um mau homem não possa mover a sua alma de bom modo: mas devemos pensar que é um efeito de uma paralisia da alma. E que é preciso lutar contra ela e fazê-la obedecer. Eis o fundamento da ética, meu caro Nicómaco.


Jean-Luc Nancy in Corpus. Paris, Métailié, col. Sciences humaines, édition revue et complétée 2006 (2000).


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

para uma vida anelante

só é feliz quem não sonha      isso
é claro      fecham-se os olhos deixa-se o mundo
com os seus círculos mais interiores
do medo cercar a vida calar
a criança curiosa

traz-se tudo para junto de si
a terra o muro a casa
o tempo por exemplo igual
um dia a outro dia
calculado amanhã

porque insuflas no ontem o ouro dizes
como era belo e bom outrora      deus
e o diabo estão no detalhe das horas
ajuizadas e sem ninguém

os anos passam escorrem sem alarmes
por ti      a erva daninha do acaso não medra
no coração purificado pelo
sal da razão aterrorizada

o teu rosto estará marcado
pela biologia      confundi-lo-ás quando
as mãos o acariciarem antes do último sono
pela casca rugosa de uma árvore      se te cortassem
verias um coração desanelado

Informação - Nova exposição na Sede, hoje, 22h00




Inauguração da nova exposição na Sede, 3 de Fevereiro, 22h00

"Erradia - Desenho Aberto", de Paulo Ansiães Monteiro, é a nova exposição da Sede. Inaugura na próxima sexta-feira, 3 de Fevereiro, às 22h00.
Pintor, ilustrador, criador de livros, performer, colaborador de editores, músicos, cineastas, escritores, Paulo Ansiães Monteiro é um artista que escapa a classificações e categorias simples. “Erradia – Desenho Aberto” inclui alguns dos trabalhos mais representativos do artista e numerosos inéditos. Para descobrir até 1 de Abril.

Contamos com todos.
ªSede fica na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, em asede.pt ou nofacebook.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Carta de Hamburgo VI

das lágrimas pouco sabes
o que fizeste       a ternura
soçobrou nos braços do inverno
como os escombros de uma noite
se alojam nos músculos

desligas o ruído que avisa
a vinda do dia antes do amanhecer
todas dormem ainda o sono justo      mal dão
conta do teu despertar      a cada uma
deixas uma carícia permites à mão a linguagem
do afecto      há ainda uma força que te enleva      suavemente
fechas a porta és agora uma máquina cortando pela cidade e
o frio     encapuzado segues como um cenobita do capital

vestido de negro viúvo de futuro serves o
pequeno-almoço à ingratidão
à usura e indelicadeza que sabem teres
declinado os sonhos em troco de independência
a cada chamada de atenção indevida reconheces
o prazer no rosto de quem te segura
pelos fios e te enlaça um nó corrediço
e algo freme da raiz dos dentes aos neurónios dos dedos

quando na rua cheiras o óleo e a humidade da beira-rio
sentes a raiva sedimentar-se nas tuas pernas
como a lama do Elba e metade do teu coração
ajoelha-se como o ramo
velho sob o peso da neve e gelo e
soluça que partas por esse rio acima
pedras nos bolsos ou cabeça no horizonte para os lados
do sol-pôr enquanto a outra metade alocada a três vidas
sopra uma brisa ao dente de leão do teu pensamento
e embala a ira     o desgosto     amolece a máquina

pelo caminho a força que te enleva das metades faz
um único para todas as metáforas e a carne     pelo canto
do olho deslindas ainda a secreta alegria de amar e ser
amado nos saltos em ser
cheirado nos beijos no olhar silenciado
no meio dele as lágrimas e a ternura reencontradas
o inverno passa como só mais uma estação na vida

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Besta


No princípio ele era um bisonte,
Rei do disco, o meu animal da sorte.
Era fácil respirar na sua herdade arejada.
O sol punha-se no seu sovaco.
Nada apodreceu. Os pequenos invisíveis
Serviam-no das mãos aos pés.
As irmãs deprimidas transferiram-me para outra escola.
O macaco viveu sob o chapéu de burro.
Continuou a enviar-me beijos.
Eu mal o conhecia.

Ele não se vai livrar de:
Patasresmungonas, lacrimante e pesaroso,
Fido Pequen'alma, o familiar intestino.
Um cesto do lixo é suficiente para ele.
As trevas o seu osso.
Chamem-no por qualquer nome, ele virá à chamada.

Poço de lama, cara de chiqueiro feliz.
Casei-me com um armário de lixo.
Deito-me numa poça de peixe.
Aqui em baixo o céu está sempre a cair.
A pocilga fica à janela.
Os insectos estrelados não me vão salvar este mês.
Tomo conta da casa no esgoto do Tempo
Entre formigas e moluscos,
Duquesa de Nada,
Noiva do Cabelo-de-presas.

Sylvia Plath in Crossing the water - transitional poems

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Informação - Virgilio Piñera na Sede, 28 de Janeiro, 17h00



Virgilio Piñera com Rosa Azevedo e Duarte Pereira na Sede, 28 de Janeiro, 17h00.

No próximo sábado, 28 de Janeiro, pelas 17h00, ªSede abre as portas à grande literatura de Virgilio Piñera, com uma leitura de contos por Rosa Azevedo e Duarte Pereira.

O pretexto é a recente edição da primeira antologia de Piñera lançada em Portugal, "O Grande Baro e outras histórias", da editora Snob (Colecção Pedante).

O momento é único e a entrada é livre.
Contamos com todos.

ªSede fica na Rua de Santa Catarina, 787, no Porto, em asede.pt e também no facebook.